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o sangue no cavalo

3 Février 2014, 12:26pm

Publié par Horizontes

texte proposé à la traduction pour l'Atelier du 10 février 2014 à la biblitohèque LE PHARE - 935 ch. de Waterloo - Uccle - à 18h30

 

Éramos eu e um cavalo/ E era um cavalo bravio [...] Éramos eu e um cavalo/Indo de encontro ao vazio.
DORI CAYMMI cantando Desafio

 

O cavalo — e eu ardendo de febre; a bala no peito sufocando-me a circulação, eu sentindo aos poucos o coração resvalar para a dança da morte. O cavalo correndo imparavelmente, a minha mão tecendo festinhas no pelo curto, a cela apertada demais, e a correria desenfreada rompendo a noite. De suor nos lábios, de pés gretados e doloridos, de bala no peito instilando-me frio, soube que morreria feliz. O vento bateu-me na face e eu caindo senti o meu último calafrio — o chão aproximou-se-me da narina e desferiu um poeirento golpe; engoli sangue e grânulos de areia; e, do chão amigo, vi o cavalo distanciar-se em circular galope. Um círculo enorme, no que foi uma ventoinhação de cauda e crina espavoneada só para mim.

 

Vi o cavalo descrever o círculo que o conduziria até mim — que me calcificaria a pele pisada; que me aumentaria o sangue em redor; que me rebentaria a boca; que me esmagaria o coração de encontro à bala; que me traria a dor que é mãe da lágrima; que me faria não chorar, não rezar, não berrar, mas apenas contrair-me de medo. Depois do círculo, o meu cavalo — o meu cavalo humano, amigo, terno, tímido, caloroso, despido, desimpedido — viria com força pisar-me. Instituir-me a morte; apresentá-la num momento sem hesitação ou cerimónia.

 

O meu cavalo ferido com a minha ausência; o meu cavalo ainda cheirando a pólvora; o meu cavalo procurando por mim; o meu cavalo bravo com os seus duros cascos; o meu cavalo sobre mim, na escuridão que já havia e mais ainda assim houve.

 

Depois do medo, veio a felicidade. A última instância entre nós havia sido o compacto toque, o êxtase de uma intimidade, ainda que coicemente endurecida, ainda que mortífera. Ao vê-lo galopante, soltando das narinas fagulhas de vapor, intimidando o vento, mesmo sentindo o odor do meu sangue brotar dos seus cascos, mais do que a minha pude inspirar a ofegante paz do meu cavalo. No que foi a gota última de oxigénio que pude reter ou desfrutar, quis compreender que o cavalo não era meu, que eu nunca fora seu ascendente e que a minha morte lhe oferecia um belo coice noturno e inconsciente, sangue que se coagularia efemeramente nos cascos e a temida mas chegada liberdade.

 

A liberdade, sim — sobre os cascos, sobre os dias, sobre as futuras travessias de águas irrequietas chamadas rios.

 

Conto de Ondjaki, extrato de E si amanhã o medo, Língua Geral 2010

livro emprestado da Ciranda do Livro da OCA - CLO-165

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