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O Gato e o escuro

23 Février 2015, 10:45am

Publié par Horizontes

Mia Couto

illustrações de Marilda Castanhas, ed. Companha das Letrinhas

 

Ce texte est proposé à la traduction par les participants de l'atelier Horizon(te)s qui aura lieu le 4 mars 2015 - 18h30 à la bibliothèque Le Phare, 935 ch. de Waterloo.

Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor. Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Tanto que lhe chamavam o Pintalgato.

Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro.

Aconteceu assim : o gatinho gostava passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.

A mãe se afligia e pedia :

- Nuca atravesse a luz para o lado de lá.

Essa era a aflição dela, o que seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo. Mas fingia obediência. Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir. Foi ganhado mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho. Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.

Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas adianteiras e se assustou. Estavam pretas, mais que o breu.

Esconde-se num canto, mais enrolado que o pangolim. Não queria se visto em flagrante escuridão.

Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira. E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade. À medida que avançava, seu coraçao tiquetaqueava. Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessado a imensa noitidão.

Só quando desaguou na outra mergem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Ollhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu ? Virara cego ? Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto ?

Chorou. Chorou. E chorou.

Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato. Foi então que ouviu uma voz dizendo :

- Não chore, gatinho

- Quem é ?

- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar, porque olho tudo e não vejo nada.

Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz ! Não era de sentir pena ? Por exemplo ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmos ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza. E o escuro, triste, desabou em lágrimas.

Estava-se naquele desfile de queixas e tristezas quando se aproximou uma grande gata. Era a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse :

- Pois eu dou licença a teus olhos : fiquem verdes, tão verdes que amarelos.

E os olhos de escuro do escuro se amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.

O escuro ainda chorava :

- Sou feio. Não há quem goste de mim

- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros

- Então por que não figuro nem no arco-íris

- Você figura no meu arco-iris

- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.

- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.

- Não entendo, Dona Gata

- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende ?

- Não estou claro, Dona Gata.

- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos.

A mãe gata sorriou bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro. E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou, viu que as suas costas estavam das cores todas da luz. Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal ?

O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande :

- Você quer ser meu filho ?

O escuro se encolheu, ataratonto. Filho ? Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.

- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato ?

- Em quem lhe disse que não é ?

E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas.

O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.

- Mas, mãe : sou irmão disso aí ?

- Duvida, Pintalgatito ? Pois vou lhe provar que sou mãe dos dois. Olhe bem para os meus olhos e verá

Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De Rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.

Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam cheios de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.

Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminoso, salvo uma estreitinha fenda preta. Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo. Por detrás dessa fenda o que é que ele viu ? Adivinham ? Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.

Fim

 

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